MEMÓRIAS

Diz o adágio popular:

“O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”

O percurso desta escola pode-o contrariar.

Nasceu torto, vingou, atingiu a idade adulta.

É agora uma bela flor.

Uma escola madura e de eleição,

Que permanece no meu coração.

“Nasceste torta, cresceste, rejuvenesces-te e floriste”

         Estávamos no ano de 1987 quando a minha vida deu uma grande reviravolta.

       Concorri em Março ao concurso de professores, decidida a vir para uma grande cidade – onde a cultura ficaria mais acessível. Em Junho, recebi uma carta da Direção Regional, dando-me conhecimento que deveria apresentar-me em Setúbal em virtude da escola em que fora colocada ainda não estar concluída. 

      Apanhei um autocarro e em Setúbal aceitei a nomeação. Fui convidada para fazer parte da comissão instaladora. Recusei, pois vinha da província, não conhecia, nem sabia rigorosamente nada da região.

       Desci da Serra da Estrela, a minha terra-natal, à procura de uma escola onde fui colocada como professora efetiva:- a Escola Secundária da Sobreda. Procurei no mapa, obtive a informação para o caminho a percorrer até à Sobreda da Caparica, e ainda recordo o facto de me terem referido que tinha que passar num cruzamento conhecido pelos “quatro caminhos” e que seguindo em frente encontraria a escola.

       Encontrei realmente uma escola na Sobreda, um estabelecimento com pavilhões pré fabricados que me pareceu simpático. Dirigi-me à secretaria para preencher a ficha de apresentação e qual não foi o meu espanto quando me informaram que não era aquela escola a que eu pertencia, mas sim a uma mais acima. Estava naquela que agora é a Escola Elias Garcia. Soube então que aquela a que pertencia ainda estava em construção, uma vez que o primeiro empreiteiro tinha fugido com o dinheiro e apenas tinha deixado a base de quatro blocos. Avisaram-me ainda que se quisesse localizar a escola correta deveria subir e descer a rua.

       No entanto perdi-me e não encontrei a escola.

       Em Agosto desse ano casei e vim residir para o Concelho de Almada, para a Cova da Piedade. E como não tinha nenhum contacto com os elementos que faziam parte da Comissão Instaladora (não tinha telefone, nem havia telemóveis na altura) recebi uma convocatória, que me foi trazida em mão por uma funcionária, informando-me que deveria apresentar-me numa escola no Feijó, num determinado dia e hora. Quando cheguei à secretaria, para preencher documentos inerentes à função, conheci a D. Teresa Pé-Curto e a D. Teresa Barquinha, que estavam “deslocadas” nessa escola.

        Posteriormente, recebi outra carta entregue em mão, que me indicava que fazia parte do Conselho Pedagógico, como representante da disciplina de Atividades Domésticas. Aleguei que era de um grupo de trabalhos oficinais de Têxteis. E de novo fui reconduzida para outra escola que desconhecia, nem sabia onde ficava. Nessa escola — em Vale de Milhaços — já com os professores do quadro da futura escola da Sobreda foram feitas muitas reuniões, para se acordar datas para o início, para se acertar as disciplinas fundamentais para “arrancar” o ano letivo. Uma vez que não tínhamos ainda as obras feitas, o ano letivo iria começar em salas cedidas pela escola de Vale de Milhaços. Mas tal não aconteceu! Foram tempos conturbados, por um lado os pais faziam muita pressão para se começar, por outro a Presidente da Comissão Instaladora fazia pressão para o empreiteiro concluir a obra.

       O início das atividades da Escola Secundária da Sobreda, em Vale Figueira, no ano letivo de 1987/88, com um atraso de cerca de dois meses, deu-se de uma forma atribulada. O prolongamento das obras, problemas com o empreiteiro que as suspendeu e a posterior transferência para um novo empreiteiro levou a que só a 7 de dezembro se “inaugurasse” .

         Foi um início de ano marcado pela rebeldia dos alunos, mas uma excelente equipa de professores preocupada, em modificar a escola e o mau comportamento por parte de alguns alunos, fez com os mesmos modificassem a sua maneira de ver a escola e passassem a gostar de a frequentar. E com muito dinamismo e atividades, estes primeiros anos de existência, deixaram marcas quer em docentes, quer em discentes. Os alunos criaram Associações de Estudantes que mimavam os colegas com imensas atividades criativas: Concursos de mesas de Natal;               Passagens de Modelos, com material reciclado executado por eles; Viagens de final de ano à Serra da Estrela; Jogos de Futebol; Bailes de Carnaval, entre outros. Recordo ainda outras atividades disciplinares com os respetivos professores, tais como: Marchas Tradicionais; Marchas Populares em Almada, Euro -Escola; Corta Mato; jogos do ambiente e vários clubes dos quais destaco o grupo de Teatro (que teve início logo no primeiro ano.) e de onde saíram alguns jovens para a ribalta dos palcos nacionais.

          O tempo foi passando e eu continuei a ver crescer esta escola que agora completa 34 anos de existência. Passou por várias fases de vida: inicialmente com o nome de Escola Secundária da Sobreda - depois com a escolha de um patrono passou a chamar-se E. S. Daniel Sampaio e há 5 anos passou a sede e a designar-se Agrupamento de Escolas Daniel Sampaio.

           Não sei por quantos anos ainda acompanharei o percurso desta escola, mas de uma coisa estou certa— aqueles que vivi, foram 34 longos anos de DEDICAÇÃO e AMOR. Revejo-me como tendo contribuído para fazer desta instituição uma ESCOLA de REFERÊNCIA.

                                                              Sobreda 25/05/2018

   reescrito em 20 jan 2022

  Maria Armanda Mendes (Profª)